Amor Perfeito? Só nos Jardins!

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O único amor perfeito que conheci ao longo de minha vida foi nos jardins. O outro amor perfeito só existe nos livros e nas historias de fada. O mito do amor romântico parece fortalecer nas culturas o desejo que o ser humano tem de encontrar no seu mundo exterior a solução para suas imperfeições. O amor perfeito é sempre o amor impossível, o amor inacessível, o amor que não corresponde à realidade e que só se realiza nas obras de ficção.

No contexto da reflexão grega, a perfeição é colocada como fim a que se destina o movimento do artista. A perfeição não é caminho, mas chegada. Dessa forma, o conceito não favorece o movimento, mas, ao contrário, sugere lugar já alcançado, chegado. A partir do conceito grego de perfeição, nenhuma pessoa pode ser considerada perfeita, afinal, ninguém está pronto. Essa verdade fere profundamente a expectativa de todos os que esperam encontrar pessoas perfeitas para estabelecer suas relações humanas.

Nós, que sentimos regularmente na carne as consequências de nossas imperfeições e não temos outro jeito de sobreviver a elas senão assumindo o movimento da vida como oportunidades contínuas de superação e aperfeiçoamento, quando nos encontramos com os outros, precisamos considerar que eles estão vivendo o mesmo processo que nós. Somos imperfeitos, mas não estamos condenados a ser vítimas de nossa imperfeição. O outro também não está condenado a morrer com seus defeitos. Dessa forma, num encontro de imperfeitos, nasce um desejo concreto de juntos lapidarem suas humanidades. Mas nem sempre o que ocorre é isso. É quase um movimento natural na vida humana a busca pelas pessoas perfeitas que venham suprir nossas imperfeições.

Inconscientes ou não vivemos uma busca desonesta de pessoas que correspondam às expectativas de nossas projeções e idealizações. O que temos diante de nós é uma contradição da existência. O mito nos retira do contato com a realidade. A partir dele, as pessoas passam a procurar realidades ideais. E o conflito se estabelece ainda mais quando percebemos que pessoas que se sabem imperfeitas estão constantemente buscando pessoas e realidades perfeitas.

Aqui está a força da inadequação. As pessoas, no afã de encontrarem a pessoa ideal, a pessoa perfeita, começam a imaginar. Olham, mas não vêm. Esbarram, mas não encontram, porque o encontro requer autenticidade. É justamente aqui que nascem os sequestros. É deste “não encontro” e deste “não ver” que as pessoas começam suas relações. Começam a projetar uma nas outras suas necessidades e lacunas. Esses cativeiros se estabelecem a partir de pedidos de mudanças de comportamento, atitudes e até mesmo de mudança estéticas. Desse encontro nasceram duas condições: sequestrados e sequestrador. Consciente ou não, a pessoa parece inventar a outra. E inventar é uma forma de estabelecer cativeiros, uma vez que a “disposição de si” fica ameaçada.
Fernando Pessoa nos fala desta realidade em alguns versos do poema Tabacaria:

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
E não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara, estava pregada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó
Que não tinha tirado.
Deitei a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
Eu vou escrever essa história para provar
Que sou sublime.

O universo da reflexão do poeta é riquíssima. O personagem que reconhece a “não vida” que a máscara lhe conferiu reassume, ao final da estrofe, a condição de “ser sublime”. Para o poeta, retirar a máscara é assumir a precariedade que o falseamento lhe trouxe. O poema nos ajuda a pensar melhor. As máscaras são as concretizações dos sequestros. O roubo foi tão profundo que o outro, incapacitado de resgatar a parte roubada, viu-se obrigado a revestir-se de personagens e de máscaras. “Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me”. Veja, há uma permissão. Quando essa relação se prolonga no tempo, as pessoas envolvidas se fragilizam muito, porque em ambas há o processo da negação do ser. “Quando quis tirar a máscara, estava pregada à cara. Quando a tirei e me vi no espelho, já tinha envelhecido”.

Os mascarados sofrem sozinhos. É um processo doloroso que atinge a muitos. Conviver com quem optou pela inautenticidade causa uma infelicidade profunda. Viver de projeções que não podem ser adequadas à realidade é o mesmo que não viver. A experiência das projeções nos coloca dentro de um mundo sem sustentação; e mundo projetado não é mundo que realiza, nem faz realizar.

Trechos extraídos do livro “Quem me Roubou de Mim?” do Pe. Fábio de Melo.

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4 comentários sobre “Amor Perfeito? Só nos Jardins!

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